Mademoiselle Zaira

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Um feto conta, a partir de uma carta anônima, o drama da mãe que, aos 15 anos, vê-se aprisionada num convento da capital.

Resenha do livro:

Um feto conta, a partir de uma carta anônima, o drama da mãe que, aos 15 anos, vê-se aprisionada num convento da capital, um mês após ser violentada.

Romance baseado em uma notícia de jornal, o autor cria uma narrativa densa, envolvente e instigante, permeada de suspense, mas sem perder a sensibilidade ao retratar o drama de uma adolescente nos Anos Dourados.

Abandono, tristeza, decepção e perigos marcam a trajetória de mãe e filho, tragicamente separados ainda na maternidade. Até onde iria uma mãe, desenganada pelo próprio pai, para reencontrar o filho?

Mademoiselle Zaira fala de temas difíceis e profundos: violência sexual, abandono, rejeição, vingança, preconceito, fidelidade, amor...

Disponível nas duas versões: impresso diretamente com o autor, via correio R$ 45,00 incluso frete. Pedidos via email: mario@mariovicente.com.br

A versão Ebook, será disponibilizada gratuitamente mediante pedido via newsletter. Basta preencher formulário na home do site.

A garota do convento é Zaira...

Em sua efêmera juventude, nossa união, involuntária, transforma a vida dela em um mar de angústia e revolta, por isso a aprisionaram nas muralhas da fé, distante de sua terra natal e sem que entendesse a nódoa que acabou com sua dignidade, deixando o desespero tomar conta dela a ponto de aumentar a dimensão de seu problema: eu, que estou nesta redoma líquida tal como uma sentinela do conflito, sobrevivendo às fracassadas tentativas, dela, de abortar nossa insólita jornada.

Sinto sua raiva homérica, porém não entendo essa voz plangente que assombra minha alma e não aceito entregá-la sem qualquer resistência, à mercê do destino, pois ainda há um sopro de esperança no fino fio de vida que nos une. Por isso, tento me aninhar neste ambiente angustiante, onde às vezes me confundo em pensamentos, quando frio e calor se misturam em uma estranha sensação e todo movimento soa aterrorizante, ligando assim o sinal de alerta que por duas vezes nos fez despertar de um grande pesadelo.

            No primeiro deles, quando eu era um embrião e ela nem me sentia; tudo aconteceu tão rápido que só reagi minutos depois. Na rotina de nosso alimento, absorvi o fel de sua ira em uma transfusão barulhenta de vários movimentos que, naquele momento, imaginei monstros navegando em um mar amargo de ideias alucinantes, seres que criavam asas, abriam-se presas e fumegavam nos olhos um fogo que incendiava o âmago da existência. Então me revirei em protestos e tentei dar chutes, gritava sem parar e, em um ímpeto de susto, arregalei os olhos marejados de medo. Por sorte, um anjo da guarda surgiu e os movimentos bruscos cessaram. Em seguida, acalmei-me ao ouvir uma voz abafada confortando mamãe. Nesse instante, deixei-me levar pela sublime harmonia.

            Não bastasse essa desesperada tentativa de ela dar fim à própria vida, dias depois, era eu quem testava os limites da sobrevivência. Tomado por um sentimento estranho, quis brincar com minha insignificante existência de apenas quatro meses imaginando que pudesse acabar com o sofrimento em nosso elo vital. Foi quando imaginei aquele cordão que nos unia, dançando à minha frente, feito uma serpente venenosa, e, sem um pingo de medo, criei coragem para enfrentá-lo. Apertei com minhas minúsculas mãos seu corpo delgado na ânsia de cessar a passagem de oxigênio e mergulhar em um sono eterno, até que me dei conta do livre-arbítrio e escolhi seguir em frente, mesmo sem saber o que o destino reservaria para nós.

            Nossa vida foi demasiado conturbada, principalmente porque mamãe foi internada em um convento da capital, a mando de sua família abastada, porém recatada, da cidade de Sollares, no Paraná, largando para trás o belo litoral de sua adolescência perdida, e eu sobrevivendo ao redor de todo o dilema que se formava, absorvendo qualquer tipo de sentimento em seu imaculado ventre, o qual um dia fora manchado pela força bruta e pela covardia humana, o que acarretou preconceitos e egocentrismo.

            Foi assim durante oito meses e, além das tentativas forçadas de romper nosso cordão umbilical, depois, quando nasci, nossa vida ficou ainda mais tortuosa, serpenteando pela inércia do destino em caminhos paralelos por longos dezoito anos.

 

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