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A última estação

De minha sacada, no quinto andar, com uma visão privilegiada, vejo, entre uma avenida, árvores e trilhas, boa parte do Parque Iberê. Desde as sete da manhã até o arrebol, é intenso o movimento de pessoas em busca de saúde ou pela simples contemplação — e que bom que ainda existem seres contemplativos. Claro, tem gente que caminha de um lado para outro: alguns correm, outros pedalam suas bicicletas e muitas mães ou babás empurram carrinhos de bebês. Para a maioria, o celular é a grande companhia. Surpreendo-me com a raridade daqueles que ousam se sentar num banco para ler ou simplesmente admirar um passarinho solitário em voos rasantes. Isso quando não aparece um sagui sorrateiro, de galho em galho.

Mas é o lago que cativa o olhar dos transeuntes. Já os arbustos e as frondosas árvores de ipês, flamboyants, sibipirunas e, acredite se quiser, meia dúzia de paus-brasil não fazem mais do que figuração estética.

Mesmo em julho, às seis da manhã já estou na minha vigília, tomando um cafezinho, com os pensamentos aquecendo minhas indagações. Ah, como tenho me questionado na iminência da aposentadoria. O que virá pela frente? Só eu e a esposa. O que nos resta quando se constata que temos mais passado que futuro?

Mas não me alongo nessas divagações porque sou interrompido pela presença dela no meu campo de visão. Digo ela como pessoa, mas pode ser ele, já que, pela vestimenta — calças de agasalho flaneladas e um moletom com capuz —, fica difícil identificar. Por isso, vou chamá-la, até por ser condizente com o “Ela”. Há dias acompanho sua rotina ao redor da grande árvore.

As cenas têm poucas nuances e ocupam, praticamente, o mesmo espaço. Ela fica ali, camuflada, ora olhando para o chão, como quem garimpa ouro, ora se erguendo para os galhos secos da árvore e, num gesto ensaiado, começa a catar folhas e gravetos para recolocar na árvore. Pelo menos é o que deduzo daqui.

Algumas vezes, num ritmo repentino, desiste da ideia e atira numa moita o que seriam os resquícios do outono. Embora eu fique com a luz acesa na sacada e ache que ela já tenha me notado aqui em cima, não parece se preocupar com nada ou ninguém. Age como se fosse a única no parque e no mundo, sem pressa e sem receio. Admiro essa complacência solitária.

Já pensei em descer até lá, mas levaria muito tempo. Na minha idade, além dos passos comedidos, é preciso atenção a tudo e a todos. Se tentasse fazer isso, não a encontraria mais lá.

Ou será que ela me esperaria?

Em outros momentos, ela recolhe sua colheita e vai ajustando tudo em sua sacola de pano cinza, como quem precisa de um troféu. Será que faria uso de folhas secas, gravetos e pedaços de toco? Fico curioso com essa atitude.

Não me parece uma moradora daqui do bairro. Com certeza é uma pessoa diferenciada, pelo menos para mim. Tanto quanto seus gestos, embora suaves, estranhos ao meu cotidiano.

Já presenciei muitas coisas daqui: brigas de casais, roubo de celular, crianças esquecidas, patos avançando nos caminhantes, macaquinhos e suas peripécias, tombos de bicicleta, colisões com patinadores e por aí vai. Mas um ser solitário a essa hora do dia, nunca tinha visto.

Ela segue num ritmo cadenciado, como se fosse um ritual religioso, organizando sua sacola, devolvendo pedaços à árvore, conversando, gesticulando, e penso que já a vi acariciando um tronco e dançando.

Esses gestos já não me surpreendem mais, pois admiro essa disciplina na aurora, com frio ou chuva, e sinto que ela também me observa, como se fosse uma sentinela do tempo.

Agora, já me perdi nos dias. Não sei se faz duas semanas ou um mês, de tão absorto nesses inícios de manhãs. Nunca comentei com minha esposa porque também temos nossos rituais. Enquanto eu me levanto para fazer o café e passar um tempinho aqui, ela segue num sono esquecido. Só acorda quando eu lhe entrego, sempre com um beijo, uma xícara fumegante de café puro e sem açúcar.

Acontece que estou solidário com Ela, até com uma certa cumplicidade, ainda que seja o arauto da finitude. Não importa. Sei que já há algum tempo estou no caminho de volta. É a lei da natureza e, contra isso, nenhum ser humano tem poder suficiente para mudar essa trajetória entre vida e morte.

Podemos prolongar essa descida. Para alguns, parece uma ladeira eterna; para outros, uma estrada suave, com muitas paisagens belas a serem apreciadas. É na simplicidade das coisas, das pessoas, dos gestos, dos olhares, do estender de mãos, das palavras suaves que vamos encontrando um rumo mais adequado para cada história. E o legado não deve ser de grandes feitos, mas, sim, de bons exemplos.

A rotina dela no parque se transformou num belo exemplo para eu pensar em outras coisas e simplificar meu cotidiano, diminuir as reclamações sobre as filas, o shopping, o trânsito, a chuva, entre outras intempéries. Deve ser um aviso, com certeza.

Tantos anos aqui e só agora me dei conta desse tipo de pessoa. Diferente da maioria, que circula no parque como se já fosse parte da paisagem.

Talvez seja Ela que esteja me vigiando, me acenando, me dizendo para mudar a direção do meu olhar e começar a perceber as diferenças e não me apegar às semelhanças. Seja o que for, seja quem for, espero continuar observando e, quem sabe, criar coragem para tentar descer até o parque e encontrá-la.

Mas você poderia me dizer que não seria mais fácil eu já estar a postos ali mesmo no parque antes dela chegar? Até pode ser, claro. Só que aí, com certeza, ela me veria. E talvez os papéis se invertessem. Eu deixaria de observá-la e passaria a ser observado.

E, como já disse, na natureza não devemos inverter papéis nem tentar enganar o tempo. Talvez seja por isso que ainda não desci.

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Mário Vicenti. Casado, escritor e jornalista, nascido em 5 de dezembro de 1960 em Cascavel, Oeste do Paraná. Filho de um amante da música e do futebol, Santos Vicente (in memoriam), que sustentava a família com sua oficina mecânica para bicicleta, motocicletas e acordeom, e de Alvina Vercino (falecida).

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Escritor Mario Vicenti

Mário Vicenti. Casado, escritor e jornalista, nascido em 5 de dezembro de 1960 em Cascavel, Oeste do Paraná. Filho de um amante da música e do futebol, Santos Vicente (in memoriam), que sustentava a família com sua oficina mecânica para bicicleta, motocicletas e acordeom, e de Alvina Vercino (falecida).

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Sobre

Mario Vicenti, escritor e jornalista, 64 anos, casado e de bem com a vida. Autor de 6 livros entre crônicas, poesias, romances, relatos de viagens e biografias. É editor-chefe do jornal Integração.

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