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Dream Life in Paris

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mamãe não sabia cantar

Livro disponível em ebook e físico

SINOPSE

Helena, octogenária e ex-vedete sofre um acidente doméstico. Em sua solitude Gustavo, o filho, precisa atender as novas demandas sem tempo para diferenças mas, abafar os silêncios que pontuaram a relação em nome da dignidade. Ainda que tardio, a mãe é diagnosticada com Transtorno de Personalidade Histriônica. Entre vaidades, distância e segredos, a jornada poder levar à redenção ou colapso. Com as fragilidades expostas entre a saúde mental e envelhecimento, o filho precisa tomar uma decisão dramática ou ambos sucumbem às circunstâncias.

 

Essa é uma história sobre laços familiares, ausências e as marcas invisíveis deixadas pelo tempo. Ele traz à tona temas que atravessam gerações: envelhecimento, relações de cuidado, a saúde mental e os silêncios que caracterizam tantas vidas por conta de feridas não cicatrizadas. Helena, a protagonista, é uma octogenária, ex-vedete que nunca brilhou nos palcos e traz dentro de si os sinais do Transtorno de Personalidade Histriônica. Quando ela sofre um acidente doméstico, o filho, Gustavo, precisa conviver diariamente tendo que enfrentar fantasmas da infância. Uma relação de meio século de contradições e reencontros, sem tempo para reparações.

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PRIMEIRA PARTE

01

“Existem mulheres sem vocação para ser mãe.” A frase, sussurrada um dia em meus ouvidos, ecoou como um segredo proibido por anos. Eu só fui entender o seu peso, a sua verdade incômoda, no dia em que Helena adormeceu no sono eterno. Nesse dia, enquanto poucas pessoas esperavam minha dor, senti apenas alívio e uma liberdade estranha, mas sem culpa. Confesso que o luto por mamãe esteve a anos-luz do que vivenciei pela partida do meu pai. Ele, ainda me habita em sonhos e cicatrizes; ela, não. E é justamente essa ausência de luto que me impulsionou a juntar fragmentos dessa insólita e perturbadora relação. Revisitei os últimos três anos a partir do acidente doméstico que a confinou em casa. Isso, nos forçou a uma convivência da qual jamais imaginei extrair algo, além de silêncios e distâncias. São lembranças recentes que evoco com memórias empoeiradas na gaveta do tempo.

Tudo aconteceu tão rápido que vi a relação maternal se transformar feito uma avalanche varrendo meio século de ausências. Desde aquela noite as circunstâncias me obrigaram a encarar fantasmas escondidos no quintal da minha infância. Costumava dormir cedo. Era domingo, quase onze horas da noite, mergulhado num sonho qualquer quando o celular tocou. Precisava descansar para dirigir quinhentos quilômetros de manhã até a capital visitar a namorada. Deitado, relutei até rastejar a mão e agarrar o telefone. Estranho ver o nome de Marilu no visor, a inquilina de mamãe. Nunca telefonava, enviava mensagens dos relatos sobre Helena. Fim de semana era recorrente as lamúrias maternais e um bom motivo para eu deixar o telefone mudo. Nesse dia esqueci. Ela tinha o hábito de reclamar se o baile da terceira idade não fosse do agrado, xingava. Se fosse bom, reclamava da vizinha, da amiga que não a visitou ou me exigia um presente qualquer. Pensei ter esgotado minha dose de paciência.

Atendi, irritado.

— Alô!

— Gustavo, sua mãe caiu no banheiro, venha logo pelo amor de deus.

— Como assim?

Respondi de forma automática, sempre quis explicações. Desligou. Sentei-me na cama e tentei retornar, não atendeu. O celular de Helena, menos ainda. Levantei e fui me arrumar. Conhecia bem essa história. Nunca esqueci os eventos de outrora que alegou ter caído. Foram cinco vezes e nunca deu em nada. Uma vez a vizinha atendeu, as outras, ela chamou o SAMU. No Posto de Saúde, era dispensada. Não passava de um mal-estar. Como sempre eu estava trabalhando e ficava sabendo horas depois.

Os desmaios que alegou ter, foram solucionados dois meses antes dessa noite, quando a levei para uma tomografia encefálica. A doutora Cristina, sua geriatra, justificou o pedido do exame pelo remédio que mamãe tomou a vida inteira. Os médicos da época imaginaram que ela era epilética. O exame mostrou os parasitas encapsulados em sua cabeça, como uma relíquia petrificada. A geriatra explicou que ela contraiu uma neurocisticercose. Infelizmente, os sintomas da epilepsia e da cisticercose são parecidos, mas o tratamento é distinto. A médica retirou o gardenal e receitou ansiolíticos e vitaminas para fortalecer os ossos. Helena tinha 81 anos e frequentava salões de dança ao menos uma vez na semana. A médica brincava dizendo: “Ela faz inveja a uma passista de sambódromo. Também pudera, uma ex-vedete não perde a atuação.” Pensei, quem não gosta de elogios?

Cheguei no bairro Alto Alegre e estacionei próximo à casa. Vi com desconforto a agitação na rua. Uma ambulância no portão e um veículo de polícia com giroflex iluminando rostos curiosos da vizinhança. Marilu veio ao meu encontro mais afoita do que ao telefone. Tentei acalmá-la. Logo, fui abordado por um policial imponente que mais parecia um leão de chácara. Sem cerimônia, questionou se eu era filho da vítima.

— Sim, Gustavo!

Pensei que ia me interrogar. Fez cara feia, virou às costas e saiu. Marilu me acompanhou até ambulância, mas ficou  distante.

— O que aconteceu, como ela está?

Perguntei à paramédica.

— Está consciente, fizemos os primeiros socorros e agora está no soro. Vamos levá-la para exames de rotina. Estava caída no banheiro e parece que se enrolou no tapete. A luz estava desligada.

Ouvi atento. A enfermeira me convidou a subir, declinei ao vê-la de relance deitada, conversando com um jovem paramédico. Perguntei dos procedimentos:

— E pra onde vocês vão levar?

— No momento só tem vaga no bairro Periolo, aí o senhor nos segue, precisamos sair logo.

Concordei e fiz sinal para Marilu se aproximar. Ainda estava nervosa. Envergonhada, disse que a polícia arrombou a porta lateral da casa. Fiquei surpreso. Esbocei irritação.

— Mas e a chave? Balançou a cabeça, depois garantiu que seu primo consertaria isso. Não contestei. Agradeci e fui para o carro sem olhar para os lados.

Seguir a ambulância foi tenso. Precisei de atenção e habilidade ao volante. A culpa me pareceu uma carona indesejável e não queria pensar em nada. Admitia não ser um filho exemplar, mas negligente, jamais. Pensava no B.O. da polícia com um registro sobre o meu distanciamento, deixando a mãe sozinha numa casa. Só pensei na minha reputação.

Ao chegarmos no bairro, do outro lado da cidade, eles foram rápidos. Enquanto procurei um lugar para estacionar, mamãe era examinada pelo médico de plantão.

Impaciente fiquei entrando e saindo na Unidade. Uma lua crescente parecia não se importar com a situação. Vinte minutos depois o médico me abordou no corredor com o diagnóstico.

— É caso de cirurgia. Quebrou o fêmur direito e precisa ser transferida.

02

 

No limiar dos anos 1980 Cascavel emergia como uma promessa econômica no Oeste do Paraná. Acenava vitalidade, com a terra fértil, que fazia brotar em cada semente plantada um voto de confiança. Mas o progresso era lento, quase indolente, refletido na escassez de grandes empreendimentos. As dezenas de comércios alinhados na extensa Avenida Brasil serviam a uma população sem ambições. A vida no interior fluía monótona, interrompida pela mudança das folhas do calendário, manchadas de graxa nas oficinas mecânicas. O país tentava se desvencilhar da ditadura militar e da economia anêmica entubada na UTI da história. Eu, era só um adolescente solitário sem notícias dela havia quinze anos.

Entrava na maioridade e o juízo faltava tanto quanto emprego na cidade. Criar raízes não era meu forte. Então, buscava novos ares em outros estados como se isso apagasse as sombras dos meus fantasmas. Fantasiava-me de rebelde crônico, mais por desejo do que ação. Era inquietação, aonde via o mundo como um lugar acolhedor, menos a minha cidade. Retornava à Cascavel, cabisbaixo. Piorou depois que papai constituiu nova família. Sentia-me à margem, embora a admiração por ele não arrefecesse. Por outro lado, a ausência materna era uma ferida aberta, que vez enquanto sangrava.

Ela foi embora, ele assumiu as responsabilidades sem hesitação. Preocupado com a minha educação, conseguiu bolsa de estudos num colégio privado. Ensinou-me profissões e tinha conselhos a me dar, menos um abraço. Era uma pessoa de valores, princípios e um homem de fé. Nosso sustento dependia das suas viagens como representante comercial. Em casa, ele adorava tocar teclados e violão, que eram os meus momentos preferidos. Mas não foi o suficiente para eu ficar. Gradualmente, fui me distanciando e por onde andasse me perdia. Era um jovem/adulto sem futuro, sem projetos, até que um dia ele resolveu dar incentivo.

Na época, eu tinha duas fontes de renda, ambas modestas. Uma como desenhista de projetos arquitetônicos, outra, como fotógrafo de eventos nos fins de semana. Papai insistia para eu criar raízes. Então, decidiu comprar uma casa no bairro Alto Alegre e me presentear imaginando que isso me transformaria. Entregou-me as chaves e fez uma sugestão: convidar Helena a morar comigo. Não sei se ele queria compensar os desentendimentos de outrora. Fosse qual fosse a intenção, aceitei, feliz, embora tivesse medo de assumir tamanha responsabilidade.

— Filho, vai ser bom recomeçar a vida ao lado da sua mãe.

— Não sei. É um pouco estranho, ela desapareceu.

Não sabia do paradeiro dela. Desisti de visitá-la na infância de tanto decepcionar-me ou não poder ficar em sua companhia. Não havia boas lembranças, só silêncio de mais de uma década. Agora tinha uma possibilidade real de construir a nossa relação. Isso reacendeu a saudade escondida, o desejo do colo, um sorriso, o que fosse de bom e aconchegante na esperança de afeto.

Dias depois, com o endereço em mãos, fui encontrá-la no Parque São Paulo. Afoito, fiquei nervoso, quase travei. Ambos sem jeito, a conversa iniciou fria, estranha, assim como éramos um para o outro:

— Como vai? Devo ter gaguejado mesmo após ensaiar mil vezes a fala.

— Teu pai te mandou aqui? Perguntou sem rodeios.

Silêncios constrangedores, olhares distraídos e perguntas diretas marcaram o reencontro. Calculei que tinha uns cinquenta anos. Senti orgulho ao ver aquela mulher alta, loira, altiva, com um sorriso escandaloso e um charme natural. Devia ser por isso que papai, ainda, pensasse nela. Uma mulher vaidosa que parecia ter saído de uma capa de revista. De início, não me olhou. Andava entre a sala e a cozinha, como quem precisa se agarrar em algo para evitar confronto. Depois, metralhou perguntas sobre meu pai: com quem ele tinha se casado, se tinha mais filhos, o que fazia, se ainda era músico e tantas que cheguei a pensar num desejo de reconciliação entre eles.

Três dias depois, no meio da tarde de uma segunda-feira, ela chegou num táxi. Ajudei descarregar duas malas, um pequeno baú e ajeitei no quarto reservado. Desconfiada, vistoriou a casa e me olhou de soslaio. Perguntei se era tudo e a resposta foi uma ordem seca para eu pagar o taxista. Ainda tentei falar algo sobre a casa, mas ela silenciou. Entrou e fechou a porta do quarto.

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Mário Vicenti. Casado, escritor e jornalista, nascido em 5 de dezembro de 1960 em Cascavel, Oeste do Paraná. Filho de um amante da música e do futebol, Santos Vicente (in memoriam), que sustentava a família com sua oficina mecânica para bicicleta, motocicletas e acordeom, e de Alvina Vercino (falecida).

Escritor Mario Vicenti

Mário Vicenti. Casado, escritor e jornalista, nascido em 5 de dezembro de 1960 em Cascavel, Oeste do Paraná. Filho de um amante da música e do futebol, Santos Vicente (in memoriam), que sustentava a família com sua oficina mecânica para bicicleta, motocicletas e acordeom, e de Alvina Vercino (falecida).

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Sobre

Mario Vicenti, escritor e jornalista, 64 anos, casado e de bem com a vida. Autor de 6 livros entre crônicas, poesias, romances, relatos de viagens e biografias. É editor-chefe do jornal Integração.

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