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Dream Life in Paris

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Atravessando oceanos e carregando enigmas

Desde os oito anos Cassio alimentou o sonho de conhecer os Estados Unidos. Ainda menino, aluno de colégio particular, graças a uma bolsa de estudos, foi fisgado por uma apresentação de agência de viagens que, em clima quase teatral, vendia em suaves prestações as maravilhas do mundo encantado da Disneyworld. Naquele auditório abafado, as imagens coloridas projetadas pareciam janelas para um universo paralelo. A magia entrou em seus olhos como quem entra sem pedir licença e ficou para sempre.

O sonho hibernou por duas décadas e antes de completar trinta anos, a oportunidade de transformar esse feitiço em realidade bateu à sua porta. Los Angeles o aguardava: a terra de Hollywood, Malibu e Beverly Hills, endereços de fantasia coletiva. Era final dos anos 1980. Ainda em São Paulo, Cassio acreditava nas promessas luminosas do neoliberalismo, que vendia a ilusão de que bastasse “empreender” para conquistar o mundo. Mais tarde entendeu que isso nada mais é do que uma falácia. Na época, vendeu sua parte em um jornal de classificados, seu único bem de valor — uma televisão — e ainda contou com a ajuda de amigos numa vaquinha que somou duzentos dólares. Para ele, aquele dinheiro parecia o passaporte dourado de uma vida nova.

A passagem comprada no modo sobrevivência foi pela LAP — Líneas Aéreas Paraguayas, com escala em Assunção. O Brasil vivia dias de expectativa: Collor esquentava a cadeira presidencial, ainda cercado pelo verniz da campanha, enquanto a realidade já começava a desgastar a imagem de “caçador de marajás”. No dia 12 de janeiro de 1990, Cassio estava em Guarulhos, na fila do check-in, levando consigo apenas uma mala pequena, sua única companheira de jornada. Foi quando surgiu um homem de sotaque espanhol, que se aproximou com um ar insinuante, quase sedutor, insistindo para que Cassio despachasse uma segunda bagagem em seu nome.

O sorriso do estranho parecia calculado demais, os olhos, ligeiros demais. Cassio, jovem e afoito, mas atento ao perigo, recusou. A insistência não cessava: cochichos, promessas, um jogo de persuasão desconfortável. Num lampejo de coragem — ou de puro instinto —, chamou a Polícia Federal. O sujeito foi detido, e a mala? Guardava mercadorias ilícitas. Um receptáculo de destinos que não seriam os dele.

O susto, no entanto, viajou junto. Quando embarcou, Cassio já não sabia se temia mais as histórias sobre a companhia aérea ou a lembrança da mala que quase carregou. O voo seguiu turbulento apenas dentro de sua mente. No sábado, 13 de janeiro, aterrisava em Los Angeles, pisando em solo americano com um misto de alívio e adrenalina.

Nos dois primeiros dias, os amigos que o receberam no aeroporto decidiram distraí-lo com um presente: um passeio aos estúdios da Universal. Ali, Cassio deixou-se fascinar novamente. Entre os vagões do trenzinho que percorria os cenários reais de “Terremoto” e “Psicose”, experimentou a sensação de estar dentro do próprio cinema. O coração batia acelerado, os olhos brilhavam diante da engenhosidade americana em transformar fantasia em espetáculo.

Mas a vida, impiedosa como um diretor que corta uma cena sem piedade, logo cobrou seu preço. Era preciso pagar aluguel, sobreviver, lutar pelo espaço na cidade dos sonhos. Cassio começou como tantos imigrantes: entregando pizzas, jornais na madrugada, atendendo em lojas de conveniência em postos de gasolina. Mais tarde, curioso e persistente, aprendeu a consertar eletrodomésticos, abriu seu próprio negócio, ganhou fôlego. Quando dominava o inglês e arranhava um espanhol convincente, passou a ser respeitado. Os mexicanos, divertidos, juravam que ele só podia ser árabe, tamanha a seriedade do olhar e a firmeza da postura.

Havia sonhos que nasciam com a luz da manhã e morriam antes do entardecer. O de Cassio, não. O dele, plantado aos oito anos, resistiu. Cresceu com ele, desafiou o tempo, e o trouxe até ali. Ainda assim, a lembrança daquela mala permaneceu como uma sombra discreta em sua biografia. Às vezes, ao recordar, Cassio se pergunta se aquele episódio não teria sido mais do que um contratempo de viagem — se não teria sido, na verdade, uma encruzilhada, um convite silencioso para um destino paralelo que ele recusou sem perceber.

Porque ninguém atravessa oceanos sem carregar enigmas em sua bagagem. E, talvez, toda mala que se recusa a abrir continue, para sempre, fechada dentro da memória.

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Mário Vicenti. Casado, escritor e jornalista, nascido em 5 de dezembro de 1960 em Cascavel, Oeste do Paraná. Filho de um amante da música e do futebol, Santos Vicente (in memoriam), que sustentava a família com sua oficina mecânica para bicicleta, motocicletas e acordeom, e de Alvina Vercino (falecida).

Escritor Mario Vicenti

Mário Vicenti. Casado, escritor e jornalista, nascido em 5 de dezembro de 1960 em Cascavel, Oeste do Paraná. Filho de um amante da música e do futebol, Santos Vicente (in memoriam), que sustentava a família com sua oficina mecânica para bicicleta, motocicletas e acordeom, e de Alvina Vercino (falecida).

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Sobre

Mario Vicenti, escritor e jornalista, 64 anos, casado e de bem com a vida. Autor de 6 livros entre crônicas, poesias, romances, relatos de viagens e biografias. É editor-chefe do jornal Integração.

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