Por Lindener Pareto
Os organizadores da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei) 2025 foram surpreendidos na noite de sexta-feira (1º) por um ofício enviado pela Fundação Theatro Municipal (FTM) cancelando o evenbto, que aconteceria na Praça das Artes, a apenas cinco dias da data marcada. A decisão foi tomada à revelia da direção da Sustenidos (entidade gestora do espaço) e rompe um contrato assinado há cinco meses, que
previa, no caso de rescisão, a necessidade de um aviso de 15 dias antecedência.
O comunicado do diretor da FTM, Abrão Mafra, foi feito de maneira a prejudicar e impedir a tomada de providências em tempo hábil para manter a feira naquele local. Rafael Limongelli, um dos organizadores da Flipei, não tem dúvida da motivação. “A decisão da Fundação Theatro Municipal é um ato de censura política, explícito no próprio ofício enviado pelo diretor Abrão Mafra, que alega que a Flipei teria ‘cunho político-ideológico’”, diz ele. Até mesmo publicações nas redes sociais com programação do site oficial foram apagadas.
Apesar disso, Rafael garante que a Flipei 2025 vai ser realizada, com expositores, debatedores e artistas sendo distribuídos outros locais.
Este ano, a feira do livro é 100% gratuita para o público e também para as editoras independentes, quebrando a lógica elitizada dos grandes eventos literários. Estão previstos 40 debates nacionais e internacionais com nomes como Ilan Pappé, Silvia Cusicanqui e Cynthia McLeod, toca em feridas que muitos setores preferem esconder. Falamos de Palestina, de quilombos, de violência do Estado, de justiça social.
As críticas de Pappé ao massacre que Israel impõe a Gaza é tido como um dos principais motivos da censura.
Entre os confirmados, estão nomes do jornalismo do ICL Notícias, como Leandro Demori, Gabriela Varella, Lindener Pareto, Laura Sabino, Juliano Medeiros e Jamil Chade.
Nesta entrevista, além de assegurar a realização da feira, Rafael pede engajamento de artistas, editoras e coletivos para ajudar a divulgar, ocupar e defender o evento. “É hora de todo mundo remar junto para que a Flipei continue navegando”, convida.
Rafael Limongelli
ICL Notícias – O que motivou a Fundação Theatro Municipal a tentar cancelar a Flipei 2025 a apenas cinco dias do evento e por que vocês consideram essa decisão um ato de censura política?
Rafael Limongelli –A decisão da Fundação Theatro Municipal é um ato de censura política, explícito no próprio ofício enviado pelo diretor Abrão Mafra, que alega que a Flipei teria “cunho político-ideológico”. O incômodo com os temas da nossa programação é evidente — especialmente o debate sobre a Palestina e a presença do historiador Ilan Pappé, que vem sendo alvo de perseguição desde que chegou ao Brasil, e a participação de militantes como Thiago Ávila, que esteve na flotilha humanitária interceptada por Israel.
Não há justificativa técnica, logística ou administrativa para cancelar um evento a cinco dias do início, rompendo um contrato assinado há cinco meses, com dezenas de contratos firmados com trabalhadores, editoras e fornecedores. Essa decisão, tomada de forma intempestiva, sem diálogo, apagando posts nas redes e no site da própria FTM, só pode ser entendida como uma tentativa de calar vozes críticas e impedir um encontro cultural que promove o debate livre e a circulação de ideias.


Qual é a importância simbólica e política da Flipei ser realizada na Praça das Artes e como esse rompimento de contrato impacta esse significado?
A Flipei escolheu a Praça das Artes justamente pelo seu valor simbólico e político. Ali, no coração do centro de São Paulo, correm as águas soterradas do Vale do Anhangabaú — um território marcado por lutas sociais e apagamentos históricos. O espaço, que deveria ser um lugar de encontro, de acesso democrático e de valorização da cultura, foi escolhido para tornar público os recursos recebidos via ProAC-SP e Lei Aldir Blanc, garantindo que a festa fosse gratuita, diversa e acessível para todos.
A Flipei sempre se posicionou como um espaço de resistência cultural e democratização do livro. O que diferencia a edição de 2025 e por que ela incomoda tanto certos setores?
A Flipei sempre foi um espaço de resistência cultural, mas em 2025 demos um passo ainda mais radical: pela primeira vez, a feira do livro é 100% gratuita para o público e também para as editoras independentes, quebrando a lógica elitizada dos grandes eventos literários. Isso significa democratizar de verdade o acesso aos livros, aos debates e aos shows, colocando no centro as editoras do país inteiro — muitas delas periféricas, negras, indígenas, LGBTQIA+ — e ampliando as vozes que raramente encontram espaço.
Essa escolha, somada a uma programação que traz 40 debates nacionais e internacionais com nomes como Ilan Pappé, Silvia Cusicanqui e Cynthia McLeod, toca em feridas que muitos setores preferem esconder. Falamos de Palestina, de quilombos, de violência do Estado, de justiça social. A edição de 2025 incomoda porque explicita que a cultura pode — e deve — ser um espaço de enfrentamento, de crítica e de imaginação de outros futuros.

Quais os impactos econômicos e sociais desse cancelamento, tanto para trabalhadores da cultura quanto para editoras independentes e fornecedores?
O impacto é enorme e atinge diretamente toda a cadeia cultural que a Flipei mobiliza. Só a organização já contratou mais de 100 trabalhadores da cultura, com cerca de R$ 300 mil em compromissos firmados. Temos ainda 180 editoras confirmadas, que contam com a feira para escoar produção e gerar renda, além de fornecedores com contratos que somam aproximadamente R$ 300 mil. No total, a Flipei impacta mais de 500 trabalhadores — artistas, técnicos, produtores, prestadores de serviço e editoras.
Um cancelamento a cinco dias do evento não atinge apenas a programação: é um golpe na vida dessas pessoas, muitas das quais dependem desse trabalho para viver. Por isso, esse ataque não é só contra a Flipei, mas contra o sustento de centenas de trabalhadores da cultura e contra a própria circulação do livro e do pensamento crítico no país.
Diante desse ataque, vocês falam em “repactuar os pactos de apoio” à Flipei. O que isso significa na prática e que tipo de apoio vocês esperam de editoras, artistas, coletivos e do público neste momento?
“Repactuar os pactos de apoio” significa lembrar que a Flipei sempre foi uma construção coletiva — e, diante de um ataque como esse, precisamos reforçar esse laço. Não falamos só de solidariedade simbólica, mas de apoio ativo, para garantir que a Flipei siga acontecendo e crescendo. Postem, divulguem e comentem sobre isso nas suas comunidades e redes.
Isso inclui artistas, editoras e coletivos ajudando a divulgar, ocupar e defender o evento, e também o público se engajando em iniciativas como o Camarada Flipei, nosso clube de apoio popular. Ele foi criado para garantir que a festa siga sendo gratuita e acessível, e para que possamos planejar o futuro — inclusive com a meta ousada de, se arrecadarmos o suficiente para financiar a Flipei 2026, devolver o dinheiro aos apoiadores. É hora de todo mundo remar junto para que a Flipei continue navegando.
Apesar do ataque, vocês garantem que a Flipei vai acontecer. Onde e como a festa será realizada agora, e o que o público pode esperar dessa edição em espaços de resistência?
Sim — a Flipei 2025 vai acontecer nos mesmos dias e horários. A tentativa de censura da Fundação Theatro Municipal não cancelou a festa, apenas a deslocou. Estamos finalizando a distribuição da programação em espaços de resistência da cidade, como o Galpão Elza Soares e o Sol y Sombra 13 de Maio, lugares que compartilham a nossa visão de cultura popular, acessível e crítica.
O público pode esperar uma Flipei ainda mais potente: os 40 debates nacionais e internacionais, os shows, as festas, a feira de livros com 180 editoras independentes e toda a programação seguem de pé. O que era para ser um ataque virou combustível — agora, a Flipei ocupa não um, mas vários espaços, reforçando o que sempre foi: uma festa pirata que não pede licença para existir e que só cresce quando tentam calá-la.
Reprodução: autor Lindener Pareto via ICL Notícias

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