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Dream Life in Paris

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Uma janela para o abismo

Valdirene havia esquecido como era a vida no interior quando, aos 30 anos, parecia satisfeita com sua lista de realizações pessoais e profissionais na capital do estado: um marido exemplar, bem-apessoado, e o pequeno Lucas, na idade da inocência. Uma família simples, porém, suficiente para preencher seus desejos e sonhos pessoais, porque, na profissão, alcançara uma estabilidade que acreditava ser suficiente para uma vida digna, sobretudo quando comparada à adolescência que passara na companhia da avó, em Iberê.

Era de poucas amizades, exceto no trabalho. Temente a Deus, não apenas aos domingos de manhã, na santa missa, mas também pelas obras de caridade em que se envolvia em favor dos mais necessitados. Estava no auge da carreira, da vida pessoal e do envolvimento social com a comunidade. Mas a ilusão da boa vida estava prestes a romper sua paz de espírito depois da última conquista profissional.

Foi logo após uma viagem à Europa — planejada com o marido havia tempos — que ela levou um choque de realidade. Val, como gostava de ser chamada, estava sempre focada em seu sucesso e não olhava para trás. Evitava falar de suas origens. Estava radiante e cheia de planos: passara três meses em Milão, num estágio de design de moda, graças aos próprios esforços, a uma bolsa do governo e, claro, às economias da família. A viagem dos sonhos, que unira trabalho e diversão. Tirou alguns dias para passear em Roma e, depois, Paris. Trouxe alguns mimos na bagagem para os seus e se presenteou sem limites.

Quando retomou a rotina de trabalho e a vida familiar na capital — levar o filho à escola, fazer compras no mercado e ainda trabalhar oito horas por dia em seu ateliê — veio o susto que a fez desenterrar um passado havia anos soterrado na pequena cidade do Sudoeste.

Foi numa segunda-feira, quando visitava duas lojas na mesma avenida. Pela pressa e pela proximidade do destino, deixou a bolsa no banco do carona. Quando parou num semáforo, não teve tempo de reagir. Por instinto, entre lamúrias e espanto, gritou ao perceber o roubo. Mal teve tempo de ver o menino franzino quebrar o vidro, mergulhar a mão no banco e desaparecer no trânsito com sua bolsa italiana.

A raiva aumentou à medida que inventariava os itens afetivos da viagem: os batons da L’Oréal, um perfume do qual só restara a fragrância fresca e suave em seu corpo. De Milão viera uma echarpe de estampa floral, amarrada à bolsa. Ela se martirizava sem saber se ficara mais p. da vida pelos documentos e cartões ou pelos itens comprados durante a viagem.

Por sorte, não reagira.

Passado o susto, esperou pela polícia. Depois do B.O., veio a saga de correr para cancelar os cartões e pedir ao marido ajuda com a burocracia dos órgãos públicos. Pensou nos possíveis saques em suas contas e em futuras cobranças indevidas. Obrigou-se a comparecer à delegacia para formalizar o caso e acompanhar a investigação, com uma ponta de esperança de reaver ao menos a bolsa.

E foi na delegacia que Val descobriu que estava desaparecida desde setembro de 2008.

— Como assim? Estou aqui, não estou?

A partir daquele registro e das informações colhidas ali, foi puxando pela memória o que lhe acontecera e percebeu que o ocorrido tinha relação com a avó.

Em casa, o marido imaginou que ela andava triste e silenciosa por causa do roubo e da burocracia com os documentos. Mas não. Valdirene fora invadida por um sentimento de culpa e por lembranças que voltavam a assombrá-la.

Quando tinha 13 anos e vivia com a avó, sua vida se resumia às obrigações domésticas, aos estudos e à companhia de duas amigas, Cris e Manu, ambas totalmente diferentes, porém leais. Mas certas memórias são como feridas não cicatrizadas. Ela rejeitara e ignorara o acontecido, assim como tentava agora delegar ao marido e à polícia os transtornos provocados pelo roubo.

Mas o passado emergira, de repente, e ela não podia mais se esconder.

Val tentou apagar aquele fim de tarde com a amiga Cris, quando saiu de casa após uma discussão com dona Zuleide, sua avó. Esta rezava terços contra namoricos, contra a noite, contra o próprio tempo, que insistia em transformar a menina em moça.

A neta não suportava aquilo e ameaçava sair de casa. Só queria esbanjar um pouco daquela energia de adolescente e ficar longe daquele cerco de orações e desconfianças.

Foi assim, aturdida e sem rumo, que acabou saindo às pressas. Pensava em encontrar o menino pelo qual estava apaixonada: um rapaz de 18 anos, com carteira de trabalho assinada e uma moto para fazer entregas, que costumava se aventurar com Val pelas ruas e avenidas.

Na casa da amiga, ela não se anunciava. Entrava direto, ora pela porta da frente, ora pela cozinha, ora até pela janela do quarto, quando o cachorro estava solto. As janelas baixas da casa, quase rentes ao chão, como era comum nas construções mais antigas, deixavam ver, por uma fresta, o que se passava dentro dos cômodos.

E foi por ali, num gesto automático de quem já conhecia o caminho de cor, que Val avistou, num relance de menos de um segundo, o corpo de Cris sob o peso de um jovem.

A decepção foi tamanha e eterna que, num rompante, ela virou as costas e fugiu. Não podia testemunhar aquela traição, muito menos entender qualquer justificativa. Sua amiga era dois anos mais velha e poderia namorar outros rapazes, mas, naquela fração de segundo, só ficaram o silêncio e um abismo que duraria anos.

Correu, fugiu e, quando percebeu, estava na casa da outra amiga, Manu.

Antes mesmo do arrebol, Val recebera inúmeras mensagens de Cris, mas decidiu desligar o celular. Manu, que era a mais introvertida das três, não questionou nada. Ajeitou sua cama, arrumou o quarto e lhe serviu um copo de água, sob o juramento de não comentar com ninguém, muito menos ligar para dona Zuleide.

Tudo virou silêncio à medida que a noite avançava sobre sua indignação.

Quando deu por si, amanhecia. Decidiu não ir à escola. Avisou à amiga que iria comprar uma passagem e viajar para a capital. Era como se o mundo a tivesse condenado injustamente. Pediu segredo e se isolou.

Por outro lado, a avó, sem notícias, fez o que sabia fazer diante do desconhecido: rezou e depois foi à delegacia. Registrou o desaparecimento com a urgência de quem teme o pior e a vergonha de quem não sabia explicar às vizinhas por que a neta sumira.

Quando Val finalmente reapareceu, dias depois, encolhida e calada, ninguém puxou muito o fio da história. A avó preferiu não saber; Val preferiu não contar. E o boletim ficou ali, registrado, esquecido, mais um papel numa gaveta de repartição pública, enquanto a vida seguia, porque era isso que se fazia, ali e naquele tempo: seguir sem perguntar demais.

Um ano se passou sem que Val procurasse as amigas: uma pela traição; a outra pelo desinteresse, por achar que não tivera apoio suficiente para suportar sua dor. Valdirene evitou a todos, até mesmo o namorado, que tentou desesperadamente explicar o que realmente havia acontecido — mas já era tarde para acertos e justificativas.

O silêncio foi a sentença.

A distância aumentou ainda mais quando a avó faleceu. Valdirene precisou se mudar para a capital, para morar com uma tia em segundo grau, e até gostou da ideia. Mesmo em outra cidade, as amigas tentaram contato, mas ela permaneceu reticente.

Muitos anos depois, já adulta, precisou voltar a Iberê para definir o destino da casa da avó. No centro da cidade, cruzou com a amiga Manu, agora bem mais falante. Não conseguiu se esquivar. Foi ali que finalmente pôde entender as consequências de sua atitude desesperada.

A cena que vira naquela tarde era real, mas o homem não era seu namorado. Era alguém muito parecido: um tio de Cris, que fazia visitas esporádicas havia tempos e impunha ameaças e promessas à sobrinha.

Ela entendeu a injustiça que cometera com a amiga, mas era tarde demais.

Até onde Manu sabia, Cris nunca mais fora a mesma, até desaparecer da cidade. Uns diziam que virara mulher da vida; outros, que fugira com o tio. Não faltaram dedos e sentenças à mocinha que se perdeu pela vida, carregando os fardos que um corpo feminino costuma carregar apenas por existir.

Agora, diante da papelada na delegacia, Val assinava, confirmando a própria existência, mas sabia que, em algum lugar, havia uma mulher que desaparecera também dos registros da vida.

Tentou encontrar uma maneira de se perdoar pela ingenuidade, pelo desespero e pela imaturidade. Não podia fazer mais nada. Nem mesmo contar ao marido o seu segredo.

Restava-lhe voltar para casa, para o seu lar, usufruir da vida digna que construíra e agradecer o excesso de zelo da avó.

Mas, naquela manhã, pela primeira vez em muitos anos, Valdirene percebeu que algumas janelas não se abrem para a luz.

Abrem-se para o abismo.

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Mário Vicenti. Casado, escritor e jornalista, nascido em 5 de dezembro de 1960 em Cascavel, Oeste do Paraná. Filho de um amante da música e do futebol, Santos Vicente (in memoriam), que sustentava a família com sua oficina mecânica para bicicleta, motocicletas e acordeom, e de Alvina Vercino (falecida).

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Escritor Mario Vicenti

Mário Vicenti. Casado, escritor e jornalista, nascido em 5 de dezembro de 1960 em Cascavel, Oeste do Paraná. Filho de um amante da música e do futebol, Santos Vicente (in memoriam), que sustentava a família com sua oficina mecânica para bicicleta, motocicletas e acordeom, e de Alvina Vercino (falecida).

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Sobre

Mario Vicenti, escritor e jornalista, 64 anos, casado e de bem com a vida. Autor de 6 livros entre crônicas, poesias, romances, relatos de viagens e biografias. É editor-chefe do jornal Integração.

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